A comensalidade, um quesito fundamental

O prazer da mesa é peculiar à espécie humana. É uma sensação que advém de várias circunstâncias, fatos, lugares e pessoas que acompanham a alimentação. São pressupostos os cuidados com o preparo da refeição, com a arrumação do local onde a mesma será servida e com o número de convivas.

Dessa forma, o prazer tem relação estreita com o compartilhamento da comida. “Uma refeição, por mais perfeita que seja do ponto de vista gastronômico, será prejudicada, se os convivas não forem simpáticos. Em contrapartida, uma refeição simples trará grande satisfação, se a companhia for agradável”, afirma o sociólogo Ariovaldo Franco em seu livro De caçador a gourmet.

A comensalidade remete a uma das expressões da solidariedade básica do grupo familiar ou da comunidade. De acordo com Flandrin e Montanari (1), há registros desse compartilhamento em banquetes no início do terceiro milênio na Suméria ou, no mais tardar, no segundo milênio em outras regiões da Mesopotâmia e da Síria. Embora descrevessem principalmente os banquetes dos deuses e dos príncipes, referem-se também as festas de pessoas comuns.

Entre os que comem e bebem juntos há, em geral, vínculos de amizade e obrigações mútuas, pois a fraternidade e a afinidade são inerentes a esse ato.

Há ainda outra característica marcante no compartilhamento de uma refeição que se revelou já na história antiga, quando refeições e banquetes funcionavam como rituais criadores de confiança no momento em que se formava uma aliança. São os ancestrais dos jantares de negócios e encontros entre empresários.

Nos tempos contemporâneos, a comensalidade é caracterizada por diversas situações advindas da industrialização, urbanização e globalização, segundo a pesquisadora Rosa Wanda Diez Garcia (2). Dentre tantos fatores, alguns se destacam, como a escassez de tempo para o preparo e consumo de alimentos, a presença de produtos gerados com novas técnicas de conservação, os deslocamentos das refeições de casa para estabelecimentos que comercializam alimentos; a crescente oferta de preparações e utensílios transportáveis; a oferta de produtos provenientes de várias partes do mundo; o arsenal publicitário associado aos alimentos; a flexibilização de horários para comer agregada à diversidade de alimentos; a crescente individualização dos rituais alimentares.

Em contrapartida a essa nova maneira de viver, é cada vez mais comum o aparecimento de movimentos que pregam o resgate a antigas práticas de alimentação, tanto no preparo da comida como na forma de degustá-la.

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(1) Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari. História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

(2) Rosa Wanda Diez Garcia.Reflexos da globalização na cultura alimentar: considerações sobre as mudanças na alimentação urbana. Revista de Nutrição, vol.16 nº. 4, Outubro/Dezembro, Campinas, 2003.

Por Érika Soares
Imagem: David Teniers, El rey bebe, 1650/1660

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Categorias: Cultura gastronômica

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