Comida e religião: um estreito relacionamento

paoevinho
Por Érika Soares

A relação das religiões com a comida é intensa nas mais diversas crenças. Inúmeras vezes a Bíblia Sagrada faz alusão à alimentação tanto de forma simbólica, como na expressão “uma terra onde mana leite e mel” ao referir-se à terra prometida dos hebreus, como quando fala dos rituais de sacrifício dos animais e das proibições de ingestão de um ou outro alimento, por ser ele considerado impuro.

Dessa forma, a gastronomia também é responsável por revelar preceitos, práticas e preferências religiosas. Flandrin e Montanari (1) consideram que os regulamentos de diferentes crenças e culturas religiosas relacionados à mesa são ditados pela vontade de reafirmar e de manifestar as identidades culturais.

Nesse processo, o alimento pode ser percebido como um intermediário real – e não apenas metafórico ou simbólico – que permite incorporar as qualidades e os valores que seria materialmente capaz de transmitir.

“A identidade religiosa é, muitas vezes, uma identidade alimentar. Ser judeu ou muçulmano, por exemplo, implica, entre outras regras, não comer carne de porco. Ser hinduísta é ser vegetariano. O cristianismo ordena sua cerimônia mais sagrada e mais característica em torno da ingestão do pão e do vinho, como corpo e sangue divinos. A própria origem da explicação judaico-cristã para a queda de Adão e Eva é a sua rebeldia em seguir um preceito religioso: não comer do fruto proibido”, argumenta Carneiro em seu estudo Comida e sociedade: significados sociais na história da alimentação. (2)

As religiões provenientes de matrizes africanas não são diferentes das demais. No Candomblé, por exemplo, o papel da alimentação é essencial, formando uma de suas bases teológicas. A comida representa uma das principais ligações entre homens e deuses, por meio das oferendas de alimentos e sacrifícios.

Nesta crença, cada Orixá possui, além de suas preferências, os alimentos que não gosta e isto impede a sua oferenda e restringe o seu consumo. “Um membro do Candomblé tem sua alimentação diferenciada de acordo com o período da vida religiosa que está passando e o Orixá de quem é filho, o que determina coisas que ele não pode comer.” explica Nadalini em seu estudo sobre essa religião (3). A comida preferida de Iansã, por exemplo, é o acarajé, portanto, a iguaria é obrigatória entre seus seguidores.

Os hindus, por sua vez, não comem carne de animais, pois acreditam que na hora do abatimento o animal carregou consigo mágoas, rancores, ódio e todos esses sentimentos.

O ato de não alimentar-se

As religiões não ditam apenas o que comer, mas também quando não devem alimentar-se. O jejum está presente em diversas crenças, sendo que, em muitas delas, os seguidores ainda permanecem fiéis aos calendários religiosos.

Os muçulmanos ainda praticam o jejum durante o ramadã, mês sagrado dos islamitas. Para os judeus, o Yom Kippur, conhecido como o Dia do Perdão, é a data judaica mais importante, pois está relacionado com a purificação do espírito por meio de um jejum, cuja duração é de 25 horas. De acordo com a filosofia do Budismo, o jejum é uma prática comum ocorrendo no dia da oração, quando os seus adeptos não ingerem nenhum tipo de carne e rezam com intensidade.

No catolicismo ainda há quem jejue, mas a prática era realmente rigorosa na Idade Média durante, principalmente, as datas litúrgicas, como a Semana Santa. Na quaresma, por exemplo, a abstinência começava pela carne, o mais apreciado dos alimentos.

Segundo as autoras do livro Gastronomia no Brasil e no Mundo, Dolores Freixa e Guta Chaves, nessas ocasiões comia-se peixe, um hábito adotado menos por preferência e mais por questões religiosas. “O peixe, aliás, era considerado na época, menos nutritivo do que a carne vermelha. Os mais apreciados eram o salmão, a truta, o bacalhau, o esturjão e o arenque. Também se substituía a carne por queijo, frutas secas e ovos, e a gordura era substituída por óleo de oliva”.

___________________________________________________________

(1) Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari. História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

(2) Henrique S. Carneiro, Comida e sociedade: significados sociais na história da alimentação. História: Questões & Debates, Curitiba, n. 42, p.71-80, 2005. Editora UFPR.

(3) Ana Paula Nadalini. “O nosso missal é um grande cardápio”: Candomblé e alimentação em Curitiba. Revista Angelus Novus – nº 3 – maio de 2012.

(4)Dolores Freixa e Guta Chaves. Gastronomia no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2009.

Tags:, , , , , , ,

Categorias: Cultura gastronômica

Assinar

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

6 Comentários em “Comida e religião: um estreito relacionamento”

  1. maria carmo doria
    19 de abril de 2015 às 6:53 am #

    Bom dia ,gostaria de saber como fazer um esquema deste texto

    • 19 de abril de 2015 às 12:44 pm #

      Olá Maria! Explique melhor. Do que você precisa?

      • Alicia
        21 de outubro de 2016 às 12:52 pm #

        Bom tarde esse texto foi muito bem explicado para minha materia da escola

Trackbacks/Pingbacks

  1. Comidas, tradição e religião | Rodízio de Pimenta - 16 de agosto de 2013

    […] https://campinasentresabores.wordpress.com/2013/01/10/comida-e-religiao-um-estreito-relacionamento/ […]

  2. Gastronomia judaica: um tempo de comer, outro de jejuar | Entre Sabores - 12 de setembro de 2013

    […] >>> Leia mais sobre Comida e Religião […]

  3. Religiosidade | Blog do Dirceu Alberto - 7 de novembro de 2017

    […] são próprias e o descontentamento da divindade com ingestão de certos alimentos é flagrante. https://campinasentresabores.com.br/2013/01/10/comida-e-religiao-um-estreito-relacionamento/ E existe também a questão do jejum, a não alimentação, como prática religiosa sem esquecer, […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: